Skip to content
May 2, 2016 / rzanini

Renovando votos

Há exatamente 1 ano,  eu realizava o meu maior sonho: casar com o amor da minha vida. Foi sem dúvida o dia mais feliz da minha vida, mas o que eu não podia prever é que cada dia após aquele foi uma nova prova de que o nosso amor por alguém pode sim aumentar ainda mais, e que a vida dentro de um casamento tem inúmeros desafios, sabores e recompensas que eu jamais imaginei.

Descobri que a lua-de-mel é realmente um momento mágico, e a nossa viagem pela Grécia e Turquia foi o cenário perfeito para que essa magia se tornasse algo inesquecível aos nossos olhos. Cada lugar diferente, restaurante, caverna, passeio de balão, cada detalhe ficou profundamente guardado dentro de mim, como um lugar secreto e protegido do tempo, para o qual a gente consegue se transportar só fechando os olhos. Ainda consigo ver o sorriso de minha esposa ao nascer do sol em um balão, numa manhã fria e simplesmente linda, com os canyons e montanhas da Capadócia a nos tirar o fôlego. Consigo lembrar do sabor dos vinhos, queijos, souvlaki e tsatsiki que experimentamos em Mikonos e Santorini, e todas as praias de água gélida, areia grossa e o sol brilhante. Cada detalhe, cada sabor, cada cheiro, cada nova descoberta foi como um símbolo da imensa aventura desconhecida que teríamos a nossa frente no casamento. Guardo cada lembrança com muito amor e carinho.

Descobri que voltar para a realidade do dia-a-dia e do trabalho é triste, e traz uma vontade constante de voltar ao passado. Encontrar o ritmo certo do dia-a-dia é algo difícil mas, aos poucos, vocês encontram uma rotina, a hora de acordar, tomar café da manhã, ir trabalhar, voltar, arrumar a casa, cozinhar, fazer compras, arrumar a casa de novo, dormir… A gente vai construindo uma nova rotina, aprendendo a definir um novo horário juntos, e então você percebe que virou seus pais. Vai dormir às 22:00 e já está bocejando desde as 21:30. Passa o dia reclamando que está cansado e faz de tudo pra não ter que sair de casa na sexta-feira à noite. Prefere pedir comida a ter que sair de casa. Prefere dormir abraçado a sair pra um barzinho. Prefere assistir a um filme do que ir pra qualquer lugar. E descobre que tudo isso tem o seu próprio sabor, uma satisfação íntima de chegar em casa, no seu reino, e poder fazer o que você quiser. E que geralmente fazer o que você quiser vai ser sempre as mesmas coisas, simples, mas que te enchem de alegria, porque são coisas feitas ao lado da pessoa que você mais ama na vida.

Descobri que a nossa família sente bastante o fato de sairmos de casa e muitas vezes exigem sua presença mais do que você consegue se programar. As tarefas do dia-a-dia passam a consumir um tempo gigante da sua vida, e qualquer atividade diferente tem que ser movida pro final de semana. E aí, falta tempo pra tudo, já que o final de semana só tem 2 dias. É cortar o cabelo, fazer compras, cozinhar pra semana, reunião em cursinho, estudar pro mestrado, limpar a casa, e muitas vezes você se pega planejando 10 finais de semana pra frente pra dar tempo de encaixar tudo mais visitas, almoços e jantares com seus pais, primos, amigos, etc. Você descobre que você não é mais dono da sua agenda, e tem que balancear atenção pra mil pessoas além, é claro, de tempo para você e sua esposa. É importantíssimo separar um tempo nesse caos para vocês sentarem no sofá e simplesmente ficarem abraçados, juntos. Ou então cozinharem uma receita nova e usarem pela primeira vez um eletrodoméstico que vocês nem sabiam que tinham ganho no casamento. Esses momentos nos renovam, revigoram, e fazem com que o caos da semana seja um pouco mais leve, um pouco menos cansativo.

Descobri que a internet mudou bastante a dinâmica dos relacionamentos. Descobri que é difícil ser mais interessante e atraente que o Snapchat, o Instagram, Youtube, Facebook e todas as outras coisas que nos fazem ficar olhando para uma tela de celular antes de dormir, depois de acordar, ao banheiro e todos os outros momentos livres. Mas, felizmente, sabemos dar a eles o tempo certo, pois é mais importante continuar conversando, falando sobre o seu dia, compartilhando seus problemas, porque isso nenhum app faz pra você. Nenhum app olha nos seus olhos, te abraça e fala que vai dar tudo certo, quando seu mundo parece um caos total. Ou te prepara uma surpresa quando você menos espera, te enche de beijos e faz você se sentir a pessoa mais amada do mundo. É importante continuar cultivando o amor, a paixão, o companheirismo. Porque, ao final de cada dia, é isso que você quer encontrar. Aqueles olhos que te acalmam, te animam, te confortam, e fazem você dormir agarrados um no outro, mesmo que a cama seja Queen size.

São esses pequenos detalhes, os pequenos prazeres do dia-a-dia que fazem a gente se apaixonar mais, sempre mais. Que fazem a gente se sentir seguro de que fizemos a escolha certa, que encontramos uma parceira para todos os momentos da vida, tristes ou felizes, únicos ou rotineiros, e que nos fazem amar o nosso casamento e querer que ele dure pra sempre. Obrigado, meu amor, por este ano maravilhoso. Cada dia traz um novo aprendizado, uma nova satisfação, e não há nada nesse mundo que seja mais precioso do que estamos construindo juntos, dia após dia.

E, finalmente, para relembrar um dos momentos mais emocionantes da minha vida, segue aqui uma cópia dos meus votos. Que eles persistam e se façam valer todos os dias das nossas vidas, como já vêm sendo, há 1 ano. Te amo mais que tudo, meu amor.

“Minha vida,

Como engenheiro e professor de física, eu sempre quis entender de tudo, saber como as coisas funcionam, entender o Universo ao meu redor e não tem nada que eu goste mais do que ter que lidar com algo novo e indecifrável. E a aí a vida me apresentou você. Você, essa mulher linda, inteligente, radiante, impulsiva, toda emoção, super intensa e totalmente imprevisível. E aí não tinha como eu não me apaixonar imediatamente por você. Não há nada nem ninguém nesse mundo que me desafie, fascine e encante tanto como você. Mesmo depois destes 4 anos, você ainda é um mistério para mim, e eu tenho certeza que vou passar o resto das nossas vidas tentando e não conseguindo te entender por completo.

Mas, ao mesmo tempo que eu adoro esse teu jeito de ser, sei que essa imprevisibilidade não existe nas coisas que realmente importam. Cada vez que eu me vejo nos seus olhos eu me sinto seguro, me sinto amado, me sinto admirado, cuidado, e eu sei que nisso você nunca irá mudar, por mais imprevisível que você seja. Você me trouxe de volta pra vida e me ensinou que a vida deve sim ser vivida intensamente, que a vida não é só o trabalho, que a gente deve buscar os nossos sonhos e saborear cada momento do caminho, mesmo que para isso a gente tenha que mudar de ideia várias vezes por dia.

Quando decidi te pedir em casamento, eu já sabia que você era a minha vida, que eu te amava mais que tudo no mundo e que o que eu mais queria era passar minha vida ao teu lado. Mas, como diria um filósofo, há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho, e esse ano de noivado foi muito importante pra gente, pois dia após dia você me mostrou por que eu queria isso, com cada plano de vida que definimos juntos, com cada detalhe do nosso apê que pensamos com tanto amor e carinho, com cada pequena vitória das poucas coisas que davam certo, com cada problema e BO que surgia com o apartamento, com a festa de casamento, com problemas no trabalho, enfim, cada dia desse ano foi uma lição importantíssima para mim sobre o que é de fato o nosso amor e sobre como será a nossa vida juntos. E eu pude finalmente entender a frase que diz que “Felicidade é ser casado com a sua melhor amiga. “

Hoje eu estou casando com a minha melhor amiga, com a minha companheira pra tudo, a minha amante, a minha paixão, a minha inspiração, a minha calma, a minha paz. Você ilumina a minha vida e me faz feliz de um jeito que eu nunca imaginei ser possível. Obrigado por ser quem você é, por querer compartilhar a sua vida comigo. E, como afinal de contas isso são votos, não poderiam faltar as promessas. Mas, ao invés de prometer coisas que você já sabe que eu prometo, como te amar e respeitar a vida toda, vou falar as coisas que eu não posso te prometer.

Não te prometo fortuna e riqueza, pois nosso bem mais precioso sempre foi e sempre será o nosso tempo juntos e a minha dedicação, atenção e brilho no olhar é algo que você sempre terá.

Não te prometo saúde infinita, mas saiba que sempre, mesmo quando estivermos velhinhos, eu estarei lá com um potinho de sopa, um copo de água gelada, uma cobertinha e um abraço quentinho.

Não te prometo uma casa grande e organizada, porque eu e os filhos que a vida há de nos abençoar vamos fazer muita bagunça mesmo, vamos fazer muita festa, muito barulho e você vai ter que aprender a ler no seu cantinho enquanto eu e as crianças fazemos muita zoeira.

Não te prometo uma vida sem brigas, pois eu e você temos nossos defeitos, mas sabemos nos tolerar já muito bem e sabemos incentivar um ao outro a sermos pessoas melhores.

Não te prometo ser pra sempre a mesma pessoa, pois você me ensinou a sempre mudar, sempre buscar ser alguém melhor, e com você eu me descubro cada vez mais, cresço cada dia mais e aprendo a ser alguém diferente.

Não te prometo somente alegrias e sorrisos, pois a vida saberá cobrar da gente as lágrimas necessárias para o nosso crescimento e renovação. Mas tenha certeza de que eu estarei sempre lá para secá-las e transformá-las nesse sorriso lindo que ilumina a minha alma.

E, finalmente, não te prometo um final feliz. Porque, para isso, a nossa união teria que ter um fim, e eu sei que o nosso amor é algo infinito e que nos manterá unidos por essa e pelas muitas vidas que virão.

Te amo, muito, cada dia mais.”

foto casamento

September 25, 2013 / rzanini

Tive recentemente uma discussão bastante interessante sobre o que determina a necessidade por uma profissão. E aí uma pergunta interessante que surge naturamente é: o que define uma profissão?

Pela definição do Wikipedia (e desde quando mesmo o Wikipedia substituiu o famoso Aurélio?), profissão é:

Profissão é um trabalho ou atividade especializada dentro da sociedade, geralmente exercida por um profissional (?????). Algumas atividades requerem estudos extensivos e a masterização de um dado conhecimento, tais como advocaciabiomedicina ou engenharia, por exemplo (claro que não podemos fugir do conceito clássico das boas profissões). Outras dependem de habilidades práticas e requerem apenas formação básica (ensino fundamental ou médio), como as profissões de faxineiro, ajudante, jardineiro (até onde eu sei Paisagismo e Jardinagem já são cursos superiores). No sentido mais amplo da palavra, o conceito de profissão tem a ver com ocupação, ou seja, que atividade produtiva o indivíduo desempenha perante a sociedade onde está inserido.

Mantendo as ressalvas da Wikipedia ao Aurélio, o ponto fundamental que define uma profissão é: produto + sociedade. E uma coisa é fato: se a sociedade não reconhece mais o seu produto como algo de valor, aquilo deixa de ser uma atividade produtiva, e deixa de existir como profissão.

Diversos são os exemplos de profissões que deixaram de existir: telegrafista, telefonista, ferreiro, condutor de charrete, etc. Mas o mais interessante é que, fatalmente, as profissões que talvez hoje estejam em alta por inúmeros fatores sociais, irão também em breve deixar de existir.

Mas então o que é que faz uma profissão existir? É somente o valor do seu produto para a sociedade? Significa que não precisamos mais de ferro ou aço? Ou talvez não precisamos mais de alguém que conduza nosso meio de transporte? Na realidade, os produtos continuam a existir e possuir seu valor, porém mudam com o tempo, exigindo novas habilidades, novos conhecimentos, muitas vezes automatizando e descartando a necessidade de processos que não agregam mais tanto valor, seja por uma evolução tecnológica ou novo conceito moral social.

E qual é a forma das profissões tentarem se perpetuar na sociedade? Através de monopólios. Ou seja, se a pequena sociedade de indivíduos que exercem uma profissão tenta criar um mecanismo de monopolizar sua função dentro da sociedade, ela garante sua existência por mais um tempo. E aí temos o quê? No Brasil, um Conselho. Seja um CREA, OAB ou qualquer outro conselho, sua existência basicamente diz: para você fazer isso dentro desta sociedade, exijo de você algo em troca. Seja uma qualificação, valor ou exame caro e difícil de passar, para fazer parte deste seleto grupo de indivíduos, você precisa pagar. Ou seja, nada mais nada menos que um valor associado a uma função. E geralmente quanto maior o valor do produto, maior o valor da taxa de entrada para o grupo. Porém, este monopólio pode ser quebrado com o tempo. A exemplo do Jornalismo, que recentemente teve a quebra da necessidade de um título superior para ser exercido, trazendo junto consigo uma crise para todos os profissionais do setor. Se alguém, não tão apto ou estudado quanto eu, pode exercer a mesma função que eu na sociedade, por que a sociedade irá pagar tanto assim pela minha função? É a crise que várias outras profissões vivem no momento na sociedade brasileira.

Este dinamismo e relação entre valor do produto x remuneração da profissão é tão direto e peculiar a cada sociedade que, um dos maiores assuntos de discussão é o valor do salário de um professor. O professor é o nosso atual mestre, aquela função que apenas intelectuais e cientistas em tempos passados poderiam exercer, formando gerações e gerações de pensadores europeus, filósofos e grande homens. Em países como Luxemburgo, Suíça e Alemanha, percebe-se logo que a edução é um produto de grande valor na sociedade. Já em outros, o diploma de presidente acaba sendo um orgulho para quem nunca teve diploma algum. São realidades e momentos diferentes de cada sociedade, onde em cada uma, uma função  e papel social específicos devem ser exercidos. Por isso, cada sociedade atribui às profissões um papel e valores distintos.

Eu, pessoalmente, vivo um momento interessante da minha profissão. Felizmente, a relação entre a disponibilidade de profissionais x o valor enxergado pela profissão dentro da sociedade para profissionais da área de TI ainda é muito favorável. Hoje, para tudo, necessita-se de um computador. De um software que faça algo. De alguma solução que integre algo a alguma coisa. E esta demanda só tem aumentado com o tempo. Porém, tenho certeza que chegará o dia em que programar ou desenvolver uma aplicação será algo digno de lendas e folclores populares. Cada vez mais existe a busca pela customização. Pela necessidade do usuário modelar sua interface. Definir suas rotinas. Definir suas interfaces. Seu modo de autenticação. Cada vez menos o papel de um arquiteto é definir uma arquitetura, e sim definir “como minha arquitetura será escalável, customizável, e ainda fará sentido amanhã?”. A chave da computação do futuro não estará em quem a programa, e sim em quem a utiliza. E, para isso, tudo terá de se adaptar. E todas as profissões associadas à necessidade de desenvolvimento de software tenderão a sumir.

O fato é, quanto mais próxima da fonte do valor, mais longa será a profissão. E onde está o valor senão nas pessoas e nos relacionamentos humanos? Qual é hoje o maior valor para o ser humano senão sua rede de relaciomanentos? Quem é uma pessoa na sociedade se ela não for bem vista e aceita pelo público em geral? Por mais rica que seja uma pessoa, se ela não for aceita pela sociedade, seu valor é nulo para a sociedade. E dado que dificilmente passaremos a existir fora de uma sociedade, a vida em conjunto e a relação entre as pessoas irá ditar todo o valor da sociedade do futuro.

Não é à toa que a então dita “a profissão mais antiga do mundo”, continua existindo. E não digo pelo simples purismo instintivo da coisa. Não creio que as pessoas recorram ainda hoje em dia à esta profissão por necessidade física da coisa. É pela necessidade de contato. Pela necessidade de se sentirem humanos. De terem a atenção de um indivíduo por um curto período de tempo. De se sentirem capazes de proporcionar prazer e sentir prazer. De se sentirem vivos. Mas até esta profissão, felizmente, um dia terá um fim. O dia em que o ser humano for inteligente e evoluído o suficiente para perceber que é possível ser amado pelo seu próximo, que é possível ser feliz proporcionando a felicidade alheia sem interesse, sem algo físico, pelo simples fato de fazer o bem, neste dia, esta profissão também terá o seu fim.

Pois já disse uma vez alguém muito sábio e já muito valorizado no passado, não pelo seu valor na sociedade, pois ele não possuía nada, mas pelo valor que suas palavras trouxeram ao mundo ao dizer:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.

Onde houver ódio, que eu leve o amor;

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;

Onde houver discórdia, que eu leve a união;

Onde houver dúvida, que eu leve a fé;

Onde houver erro, que eu leve a verdade;

Onde houver desespero, que eu leve a esperança;

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;

Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais

Consolar, que ser consolado;

compreender, que ser compreendido;

amar, que ser amado.

Pois, é dando que se recebe,

é perdoando que se é perdoado,

e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Esta profissão, descrita nestas palavras, resume tudo o que há de mais importante e valor neste mundo. Se esta não for a profissão que mais trará valor e luz ao mundo, não sei qual outra será. E se hoje o mundo já percebe aos poucos isso, em pouco tempo, as profissões que viverem baseadas em algo diferente disso, terão de se adaptar ou assumirem o seu breve, triste e inevitável fim.

January 5, 2013 / rzanini

Mundo cão

Mundo Cão

Ele decide acompanhá-la até sua casa. Já eram 03:30, e a esta altura as ruas estariam desertas. Ela estava sozinha em seu carro, e ele, por precaução, decidiu segui-la até sua casa, apesar do percurso não levar mais do que cinco minutos. Fazer o quê. Hoje em dia não se pode correr certos riscos.

Acompanhou-a em cada avenida, cada esquina, até que finalmente a ultrapassou e parou diante do portão da sua casa. Ficou aguardando que ela se aproximasse, e assim que percebeu que o portão se abria, sabia que ela havia embicado na esquina. Nisso, percebera que um rapaz, alto, magro, com mochila nas costas, descia a rua, calmamente. “Alguém voltando para casa”, pensou. O jovem dá uma breve olhada para trás, para entender o barulho que repentinamente tomou conta da rua. Era o portão, desses, de ferro, sólido, capaz de deixar tudo e todos para o lado de fora, que gemia ao se erguer lentamente.

“Continue andando”, pensou consigo mesmo. “Merda. Ele continua olhando o portão. Olhou para mim. Está dando meia volta. Droga amor, entra logo nessa garagem. Antes que ele volte.” Antes que o rapaz a interceptasse ou ao seu carro, ele decide baixar o vidro, apenas 1/3, e manda um “Opa! Fala aí!”. O jovem desiste de abordá-la, e direciona-se para o carro dele. “Ela entrou e já fechou o portão. Ainda bem”.

“Desculpe incomodar a essa hora e assim nesse local. Mas queria falar com o senhor, com todo o respeito.”

“Claro, pode falar”. “Mas seja breve…“, pensou. “Minha namorada deve ter visto algo, e daqui a pouco deve aparecer para ver o que aconteceu“, concluiu.

“Eu estava procurando um amigo do meu pai, que trabalhava aqui perto nesta cidade. Meu pai já se aposentou faz uns 20 anos e mudou de cidade, mas disse que com certeza seu amigo poderia me ajudar. Cheguei até aqui, mas o endereço havia mudado. Fui até um policial perguntar o novo endereço, e ele me encaminhou para o SOS (Serviço de Obras Sociais). Mas lá eles dão preferência para quem não tem moradia em seu nome, e eu ainda devo ter algo em meu nome”.

“OK, mas diga lá, o que aconteceu? O que você tá precisando…?”. Sua tentativa de resolver as coisas rapidamente parecia não ter dado certo. Quem sabe sendo mais direto ao ponto não conseguia acabar logo com aquilo.

“Então, como eu ia dizendo, já que não encontrei esse amigo do meu pai, estava querendo voltar para casa. Só que eu tô sem dinheiro nenhum. Tenho dois reais. Passei o dia aqui. Tô com fome. Tô me sentindo nojento, tô fedendo. Mas não consegui nada para fechar uma passagem, que custa R$8,50.”

Agora chegamos a um número“. Parece que sua abordagem mais incisiva havia dado resultado. Seu telefone começou a tocar. Sua namorada, já na porta, lhe implorava para ir embora. “Despista o cara, fala que não tem nada e vai embora”. “Ok amor, volta pra dentro que já estou indo embora”. “Vamos ver se assim ela entra mesmo.

Sua janela permanecia nos mesmos 2/3 levantados anteriormente, como se aquela simples barreira de vidro pudesse o proteger de toda e qualquer potencial violência do seu jovem interlocutor. “Caramba. Esse cara deve ter a minha idade, mas tá meio acabado”.

“Ok, entendi. Tu tá precisando de uma grana para uma passagem.”

“Isso. Mas não quero causar problemas. Sei que esse bairro é chique, que daqui a pouco passa um vigia, e eu não quero arranjar problemas, moço. Olha, esse aqui sou eu…”, enquanto retira uma habilitação velha e suja, mas que apresenta uma foto de um rapaz muito semelhante a ele, mais forte, com olhar vibrante, cabelos cortados e uma aparência de uns 10 anos mais jovem.

“Sabe, eu há seis anos havia recebido uma bolsa de estudos. Eu fui para a Bélgica estudar Engenharia Química durante um ano. Mas aí lá acabei me envolvendo com drogas, virei morador de rua, sem ninguém pra me ajudar. Voltei pro Brasil e meus pais me colocaram numa clínica. Já saí da clínica faz um tempo, mas eu perdi tudo. Nada que eu faço na minha vida parece dar certo. Não consigo nenhum trabalho. Quando tento abrir algum negócio, só arranjo mais dívida. Foi por isso que vim atrás deste amigo do meu pai. Sei que ele pode me ajudar. A me conseguir alguma coisa bacana. Mas acho que só consigo falar com ele semana que vem. Se eu conseguir voltar pra casa”.

Neste meio tempo, sua namorada havia ligado desesperadamente mais duas vezes. Ele desligara da primeira vez. Atendera a segunda, e tentou acalmá-la: “Já estou indo. Ele já está indo embora”. Mentira. Havia se interessado pela história do rapaz. Não lhe parecia mentira. Ele mesmo conhecia colegas do seu curso de Engenharia que fizeram intercâmbio desta forma. Alguns se envolveram com drogas. Mas todos voltaram para suas vidas de classe média tranquilamente, como se nada tivesse acontecido.

E se esse cara fosse um desses amigos do passado? E se por acaso o conhecesse? E se ele fosse 10 anos mais jovem, estivesse em uma cidade universitária do interior e alguém na rua viesse com uma história de que estava sem dinheiro para ir para casa, como ele agiria? Nestas ocasiões já havia cansado de dar carona para pessoas que mal conhecia, simplesmente porque possuíam algum amigo muito distante em comum. Durante a Universidade, havia visto inúmeros casos de amigos que se perderam, que acordaram em casas desconhecidas, e sempre davam um jeito de voltar para casa. Em outros tempos e locais, seria o caso de chamar o cara para comer alguma coisa, tomar uma cerveja, e depois levá-lo para a Rodoviária. O que havia de diferente naquela cidade, naquele momento, naquela situação? Ele sabia que muito pouco, quase nada. O que o impedia de agir da forma como queria?

Ele não sabia. Era por que agora ele tinha um carro próprio? Era por que agora era um Engenheiro formado, dentro do seu carro, com medo do que alguém do perigoso mundo descrito por noticiários, revistas e TVs poderia fazer com ele? Era medo por sua namorada? Medo de ser sequestrado? Medo do quê?

Ele não sabia definir. Mas não conseguia ficar à vontade. Acreditava no rapaz. Queria levá-lo para comer algo, dar uma grana, levá-lo até a Rodoviária. Quem sabe ele não contava um pouco mais sobre a Bélgica, suas experiências, seu sonhos. Porra, era um engenheiro como ele. O que o impedia de agir desta forma? “Porra, é muito arriscado. E se for tudo mentira? E se na hora que eu falo para o cara que vou lhe dar uma carona ele saca alguma arma? E se ele tenta fazer com que minha namorada venha para a rua? E se o cara me mata, some com meu carro, celular, dinheiro, e ainda atormenta minha família, amigos e namorada com meu telefone?”.

Que mundo de merda que ele estava vivendo. No dia que paramos de agir com espontaneidade e passamos a calcular os riscos, deixamos de ser quem realmente somos. Deixamos de ser sonhadores. Deixamos de ser alguém que quer mudar o mundo, e passamos a fazer parte dele do jeito que ele está. Passamos a ser números em pirâmides sociais. Passamos a achar que 1/3 de janela nos separa da realidade. Passamos a acreditar nas diferenças. Todas elas. Mesmo que intimamente saibamos que elas não existam. “Que merda”.

Pegou algumas notas que tinha no console do carro, pegou mais algumas da carteira, e totalizou R$10,00. Esticou o braço pelo 1/3 de vidro e, com uma cara de desapontado, soltou um “Beleza cara. Infelizmente só posso te ajudar com R$10,00. Vai lá, tenta pegar teu ônibus e comer alguma coisa”.

O rapaz não entendeu de imediato o que estava acontecendo. Quando viu o dinheiro, ficou nitidamente envergonhado.

“Obrigado, senhor, mas eu te dou o troco. Nunca roubei, nunca enganei, nunca pedi. Só preciso de R$8,50, eu já tenho R$2,00. Te devolvo o troco.”

“Não cara, vai lá, o que sobrar tu usa pra comer alguma coisa por lá.”

“Obrigado. Deus lhe abençoe. Tomara que algum dia eu possa lhe retribuir. E desculpe o incômodo, não queria chateá-lo.”

“Imagina. Boa sorte. Vá com Deus.” Nisso, o rapaz pega o dinheiro, e volta a subir a rua, na direção contrária. Na direção da rodoviária. Ele, por sua vez, liga o carro, fecha a janela entreaberta, coloca o cinto e segue seu caminho.

“Eu estou chateado sim, cara. Mas não é com você, que acaba de me contar a sua história, expondo sua vida, me pedindo um singelo favor. É com a bosta de ser humano que eu me tornei. Que esse país se tornou. Tá errado. Tá tudo errado. E eu acabo de cometer o pior dos erros: parar de acreditar.

O telefone toca mais uma vez. Mas desta vez, ele já havia virado a esquina. “Sim, amor. Já saí da frente da sua casa. O cara já foi embora. Pode ir dormir tranquila. Estou são e salvo”. Só não sabia salvo do quê, uma vez que não correra perigo algum, e se questionava seriamente o que era ser “são” em um mundo desses…

Como nos disse uma vez, em um de seus discursos, alguém que para mim é o maior exemplo de coragem, determinação e abnegação do mundo, Nelson Mandela:

“O bravo não é quem não sente medo, mas quem vence esse medo.”

Quem sabe um dia, nós todos não deixemos de sentir medo. E passemos a fazer, assim como ele, a diferença.

August 1, 2012 / rzanini

Ninguém à espera…

“Podemos te colocar no das 20:40, senhor.” “Ótimo!” “Não adianta muito. Mas já é alguma coisa”, pensou. Confirmou o horário e portão no telão. Para variar, atrasado. Sentou-se na primeira poltrona livre. Com sorte, em uma hora e meia estaria em casa. Se o trânsito ajudasse. “E se a fila para o taxi não for infinita como sempre”, suspirou.

“O embarque até que foi rápido… Graças a Deus sobrou uma poltrona no meio. Eu e esse gordinho jamais caberíamos sentados lado a lado…” – e já estava dormindo, antes mesmo do avião decolar. Como de praxe, acordou com o solavanco da aterrissagem, e por pouco não bateu com a cara no banco da frente com a freada. “Caraca, esse é dos bons.”

Desceu as escadas rolantes. Passou direto pelas esteiras. “O bom da viagem bate-volta é não ter que levar nem esperar as malas”, concluiu. Estava logo atrás de uma senhora, que segurava pela mão uma menininha loira, de aproximadamente 5 anos, que saltitava de agitação, enquanto sua mãe tentava puxá-la juntamente com uma grande mala vermelha.

“Será que o papai veio nos buscar?”, disse a menininha, enquanto tirava os cachos saltitantes e loiros da boca.

“Claro minha filha! Ele passou a semana longe de nós, deve estar morrendo de saudades! Olha ele lá! Vá correndo e dê um abraço bem forte!”

Deixou-se levar alguns segundos por aquela cena. A menina saiu correndo desajeitada para o pai, que já se agachava para tê-la em seus braços. A menina, agarrada com todas as forças ao pescoço do pai, fora levantada junto, quando ele levantava para abraçar também sua esposa. Continuou observando a cena, enquanto se dirigia para a saída. Sorriu com uma leve inveja nos lábios, soltando um curto e breve: “Sortudo.”

Nenhuma placa. Nenhum sorriso. Nenhum braço aberto à sua espera. Nenhuma criança pequena indo correndo à sua direção. Nenhum pescoço esticado a cada abertura da porta, para ver se ele já estava chegando. Parecia invisível. Passou pelas portas automáticas como se fosse um fantasma. Alguns olhares estranhos encontravam com o seu, como se o criticassem. “Deve ser a cara de sono. Ou o cabelo bagunçado.”

Por que aquilo o incomodava tanto? Sabia que não haveria ninguém ali. Já estava acostumado a chegar em aeroportos estranhos, a desviar da multidão e se direcionar como um robô para o guichê de taxi ou ônibus mais próximo. Acostumado a chegar em um hotel tarde da noite, a encarar um quarto vazio e estranho e dormir como se ali fosse a sua própria casa. Por que hoje, quando estava voltando de fato para sua casa, algo parecia errado? Teria sido só hoje? Não. Não mesmo. Já tinha vivido este sentimento outras vezes. Em outros aeroportos. Em outras cidades. Em outros idiomas. A ausência tinha se tornado sua mais frequente companheira.

Talvez estivesse cansado. “Cansado de ser um fantasma”, filosofou. Sentia como se não fizesse mais parte de algo. Como se a cada chegada vazia, a cada ausência de alguém que não devia estar lá, uma pequena parte de si morria. Ou sumia. Ou simplesmente não fazia diferença. “Talvez seja a indiferença alheia o motivo para nos tornarmos indiferentes”, cogitou.

Recordou a primeira vez que embarcou em um avião. O calor da despedida de amigos e familiares, todos aglomerados no saguão do aeroporto, vendo sua pequena família de mudança para outro estado. Daquela vez, sua família estava junto a ele. Seu pai os aguardava no aeroporto na chegada. E desde então todo regresso à terra querida era acompanhada de muita festa, muitos parentes, muitos sorrisos, braços e abraços bem abertos.

Os retornos tornaram-se menos frequentes com os anos. Mas a expectativa e festa continuavam. Talvez fosse por isso que fazia tanta questão de voltar sempre. Uma vez ao ano que fosse. Pois sabia que lá sempre haveria alguém à espera. Alguém que sentia sua falta. Alguém que se vira privado de sua companhia e fazia questão de estar lá desde o primeiro passo em terra firme. Com sorte, cada chegada, cada expectativa, cada sorriso, conseguiriam reviver pequena parte de si que havia morrido durante o ano. Conseguiriam anular o efeito fantasma das chegadas vazias, e o fariam ser novamente uma pessoa com expectativas. De ser alguém. De ser lembrado. De fazer diferença no mundo.

Tentou imaginar como seria seu futuro. Teria ele alguém à sua espera? Deixaria finalmente de ser um fantasma? Ou a rotina de vôos, aeroportos e saguões vazios faria cada vez mais parte da sua vida? Como tinha sido a trajetória daqueles que tinham trilhado o caminho que ele estava começando a trilhar? Como eles tinham passado a vida inteira nesta indiferença, deixado que a ausência tomasse conta de sua alma, aniquilando por completo suas expectativas de serem esperados por alguém? Como isto haveria de petrificar também o seus próprios sentimentos e torná-lo mais um zumbi de aeroporto? Será que ele já havia contraído este mal?

“Se sinto falta ainda tenho expectativas. Se tenho expectativas, parte de mim ainda não morreu por completo”, assim esperava que fosse. Entrou na fila para o táxi. Mais 18 carros e o próximo seria seu. Checou seu smartphone. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada perdida. Somente seu próprio check-in no aeroporto a flutuar no vazio na lista de notificações do aplicativo. Talvez as coisas estivessem piores do que pensava….

February 29, 2012 / rzanini

O poder do não

Há muito tempo atrás, numa galáxia muito muito distante, um grande amigo meu me fez recordar um desenho há muito tempo esquecido, que passava na TV Cultura, entre vários dos ótimos programas que ocupavam as minhas tardes de criança. Ele insistia “lembra, aquele desenho, do Pare com isso e arrume tudo, e do grande e briguento EU DISSE NÃO!”. Eu sinceramente não recordava desse desenho, até vê-lo um dia desses no youtube (para quem quer lembrar também, segue o link). O desenho era totalmente sem noção, mas era interessante ver como algumas expressões tão comuns para pais e mães marcam a imaginação das crianças.

É engraçado como dizer “não” é visto como algo ruim na nossa vida, e como essa noção vem desde a infância. O não nos é apresentado como o sinal do proibido, sinal de que você chegou numa barreira inexplorável, um sinal de que se você cruzar este limite estará bem encrencado. Nós crescemos personificando o não como tudo o que há de ruim e chato no mundo. “Posso comer esse doce?” “Não.” “Posso brincar lá fora na chuva?” “Não.” “Posso brincar com a furadeira?” “Definitivamente NÃO!”. Tudo bem que o não às vezes salvava vidas. Mas costumava ser muito chato ser a pessoa que ouvia o “NÃO”, e sempre rolava aquela promessa “quando eu for grande, não vou falar não para ninguém”.

Meu sobrinho aprendeu recentemente a falar sim e não. E, apesar da pouca idade, ele sabe se impor direitinho ao gritar um NÃO quando a gente tenta pegá-lo no colo para encher de cócegas, beijos e todas essas coisas que crianças (e nós também, quando crianças) detestam que a gente faça. A gente aprende direitinho que o NÃO é a melhor ferramenta para assegurar nossos direitos. “Posso brincar com o seu brinquedo?” “Não” “Posso pegar um pedaço do seu lanche?” “Não”. E assim a gente aprende que, se a gente quer ter as nossas coisas e não deixar ninguém chegar perto ou estragar a nossa diversão, um “não” bem dado já basta.

Só que aí a gente descobre que geralmente quem fala muito não é o cara chato. É o cara egoísta. É o cara que nunca quer fazer nada. É o cara que não sabe se divertir. É o cara que tem medo de fazer qualquer coisa. E a gente passa a não querer dizer tanto não, afinal de contas, queremos ser aceitos. E é aí que começa o uso indireto do não. Você não quer ser o chatão que vai falar não, mas você ainda quer manter os seus direitos. Então? “Vamos ao cinema assistir O Exorcista?” “Putz, minha mãe disse que eu não posso ir”. E eis que o não continua exercendo seu papel, mas agora ele é uma imposição externa, veja bem, não sou EU que estou falando NÃO, é a minha mãe.

E a gente entende que é possível terceirizar o não. Afinal de contas, eu não quero impor restrições aos outros ou a mim mesmo, não quero ser o estraga prazer. Desde que alguém assuma essa tarefa. O tempo passa e a gente passa a pagar pessoas para que elas digam o que a gente pode ou NÃO comer. Quando a gente pode ou não ter uma reunião. O que a gente pode ou NÃO fazer. A idéia da restrição é tão avessa dentro de nós que se chegamos a nos impor uma restrição, vamos logo quebrando-a, para mostrar que somos capazes de romper barreiras, que podemos quebrar os limites sempre que tivermos vontade.

Gosto muito de um filme de 2008, estrelado por Jim Carrey, chamado “Yes Man”. Ele tenta mostrar justamente o contrário, que nós falamos tanto não que deixamos de aproveitar a vida, de viver novas experiências, de conhecer novas pessoas. E, afinal de contas, quem quer ser assim? E o herói do filme vê a sua vida ser completamente mudada a partir do momento em que ele passa a dizer SIM para tudo. Tudo dá certo, ele é promovido, conhece uma garota legal, enfim, tudo vai às mil maravilhas. Até que ele percebe que dizer sim para tudo não é bem o caminho. Ele percebe que ao concordar com tudo, ele deixa de ter opinião própria. Ele se vê obrigado a fazer coisas que ele não quer, a deixar de estar com quem ele quer porque topou fazer alguma idiotice em algum outro lugar. E a lição de moral do filme é justamente esta: saiba por que você diz sim ou não às coisas que surgem na sua vida. Dizer sim é fácil, abre portas, mas você não precisa de muito pensamento para dizer um sim. Agora, para negar algo, você precisa obrigatoriamente raciocinar. Entender por que você está abrindo mão de algo, por que você está negando alguma oportunidade, ou se impondo um certo limite.

E eu acredito que aí está a grande dificuldade de crescer. É saber voltar a utilizar o não como mecanismo de defesa dos seus interesses ou dos interesses gerais de um grupo. É saber que cada “não” possui uma conseqüência, e que você é totalmente responsável por ela. É preciso muita maturidade e coragem para dizer um “não” com convicção. Toda vez que alguém diz não a qualquer tipo de vício. Toda vez que alguém diz não à violência ou ao preconceito. Toda vez que alguém diz não à corrupção. Todos estes “não” exigem pulso, exigem a certeza de quem os pronunciam. E trazem consigo o respeito, a esperança, a realização de algum sonho.

Ao longo da minha vida inteira me considerei um cara que não sabe dizer não. E via isto como algo positivo. Achava que ao não negar nada a ninguém eu poderia mudar o mundo, mudar a vida das pessoas à minha volta, resolver todos os problemas, abrir todas as portas, abraçar todas as causas perdidas, fazer tudo o que meus amigos e familiares gostariam que eu fizesse. Eu acreditava que isto fazia de mim uma pessoa “parceira”, o famoso “pau-pra-toda-obra”, o cara que estará sempre lá pra você. E quando o não era desejado, tratava de arranjar alguém para assumir a culpa. Mas tenho aprendido a duras penas que não saber dizer não é um dos piores defeitos que uma pessoa pode ter. E, quase sempre, ela que sai perdendo.

Você acaba assumindo mais responsabilidades do que consegue dar conta. Você acaba decepcionando justamente aqueles que você não queria decepcionar falando um “não”. Você deixa de ter tempo para qualquer coisa, pois você prometeu o mundo para todos. Você acaba dizendo “não” para aqueles que estão mais próximos, pois certamente eles entenderão. Você aprende que querer agradar a todos é agradar a nenhum. Você deixa de fazer o que gosta para fazer o que os outros gostam. Você deixa de dizer um não quando deveria e acaba criando um mal entendido, criando falsas expectativas. Você deixa você mesmo em segundo plano, sua saúde, sua realização, seus desejos e sonhos, porque está ocupado demais dizendo sim para tudo e todos que surgem. Você deixa de ter a sua própria opinião.

Recentemente, tive uma longa conversa com a minha maior mestra, minha mãe. Foi mais um monólogo do que uma conversa, pois eu tinha mais que ouvir do que falar. Mas após pensar bastante sobre as ponderações dela, após ler bastante sobre o assunto em vários lugares (inclusive gostei muito deste blog aqui), após ter escutado muito dos meus próprios chefes, amigos e colegas de trabalho que eu preciso aprender a dizer não e a priorizar as coisas na minha vida, acho que agora é chegado o momento. É chegado o momento de resgatar aquele instinto egoísta e mesquinho da primeira infância, aliado às ponderações e reflexões da idade adulta, para voltar a dizer não com a minha própria boca. Voltar a priorizar os meus interesses. Voltar a fazer o que eu gosto, em companhia das pessoas que eu amo, com o tempo que eu quero ter para me dedicar a elas. Como vou poder dizer um não algum dia para um filho, se eu não souber dizer não para mim mesmo e para mais ninguém? Definitivamente não: agora é o momento. Chega de perder oportunidades, chega de perder pessoas queridas, chega de perder tempo com o que não é prioritário só por medo de dizer um não. É hora do No Man reassumir o controle. É como minha mãe sempre me disse: “É preferível ficar vermelho de vergonha (ao dizer um não), do que roxo de raiva (e ter que fazer algo que você não quer).”

Se você por acaso me convidar para alguma coisa, ou me pedir qualquer coisa e eu lhe disser não, não fique triste, não leve para o lado pessoal. Você só deu azar de ter chegado atrasado, ou de no momento não ser a minha prioridade. Mas, mesmo assim, aguarde. Porque quando o sim vier, ele terá muito mais valor e será muito mais importante do que os milhares de “sim” que eu tenho falado por aí ultimamente.

May 31, 2011 / rzanini

Enfim: Alemanha

Parecia que a coisa não iria rolar nunca, mas acabou acontecendo! Vim para a Alemanha depois de 2 meses de espera e algumas centenas de festas de despedida. Não que as festas não tenham sido legais, mas a demora estava me incomodando! Vim pra cá no sábado dia 20/05, num vôo muito agradável, apesar de estar sentado na poltrona do meio… Acreditem, para um cara grande, sentar na poltrona do meio não é nada agradável… Mas tudo bem, valeu! Depois de 12 horinhas, finalmente Frankfurt!

Saí do aeroporto e já peguei o trem para Karlsruhe direto do aeroporto, coisa que realmente funciona e dificilmente vemos no Brasil. O trem chegou rapidinho, só demorei pra conseguir um táxi porque era domingo, e as coisas costumam estar todas fechadas nos domingos, então os táxis não ficam circulando por aí. Cheguei no hotel bem tranquilo também, quarto muito bom, café-da-manhã excelente, tudo nos conformes. A grande vantagem do hotel é que ele fica praticamente no estacionamento da Siemens, então ir trabalhar é questão de só caminhar até a entrada do escritório! Isso sim é vida, nada de trânsito ou demoras para chegar no trabalho!

Trens em Karlsruhe

Karlsruhe Hauptbahnhof

A galera da Siemens foi bem receptiva, todos falam um inglês muito bom e foram super atenciosos. Os refeitórios da Siemens também são muito bons, várias opções, apesar de estarem todas em alemão! O truque é ver o que tem no prato da galera que sai da fila e mandar ver! Durante a semana fomos ao centro de Karlsruhe várias vezes para jantar, geralmente em restaurantes não alemães – a maioria das coisas alemãs fecham às 18h, então para comer por aqui mais tarde, só comida turca, tailandesa, chinesa, o que for. E, pra quem conhece o Japs, sabe que ele não é muito fácil de agradar!

Karlsruhe é uma cidadezinha muito agradável, no esplendor do estilo alemão. Bem planejada, tem trem para tudo que é lado, as construções não são muito altas e todas harmoniosas com o estilo arquitetônico da cidade, e rola um ar de paz por aqui. Acho que o nome da cidade já diz tudo mesmo (Karlsruhe = descanso de Karl). Não é a toa que muitas empresas tem sede por aqui, a cidade é realmente um centro de tecnologia, bem estar e paz. Nada melhor para produzir e pensar em coisas novas do que um lugar tranquilo. Apesar da tranquilidade, ela não deixa de ter seu movimento, seus encantos, sua vida noturna.

Eu e o Japs fomos a um barzinho na sexta-feira retrasada chamado Aposto. É um barzinho italiano, mas lotado de alemães e gente de tudo que é lugar. O lugar começa a ficar cheio só depois da meia-noite, quando então as arianas típicas resolvem dar o ar da graça. A maioria dos garçons e garçonetes fala inglês, mas alguns passam aperto.

No dia seguinte aproveitei para dar uma caminhada pela cidade. Saí do hotel e fui até a praça central da cidade, próxima ao Schloss (Castelo). Aproveitei o ótimo sol da primavera pra caminhar pelos jardins do castelo, tem várias trilhas, bastante gente tomando sol, praticando esportes, fazendo de tudo. Pontos que chamaram a atenção:

  • Galera de turbante fazendo “huuummmm” e todos abraçando uma árvore em pleno parque
  • Velho fazendo movimentos de luta ao melhor estilo “Karatê Kid”
  • Pessoas dormindo tranquilamente com todos os seus objetos, bolsas, notebooks esparramados pela grama

Trilhas atrás do castelo

Karlsruhe Schloss


Jardins do Schloss

Pirâmide da cidade

O passeio foi ótimo, deu pra cansar (fiquei quase 3 horas caminhando pra lá e pra cá) e conhecer a cidade muito bem. Outra coisa legal de Karlsruhe é que todo mundo anda de bicicleta, pra tudo que é lado. Tudo bem que a cidade é pequena e plana, mas a galera realmente leva o lance de bicicleta a sério. Tem até faixa e semáforo especial pra bicicletas em quase todas as ruas. Deve ser por isso que as pernas da mulherada de Karlsruhe são a principal atração da cidade! Dá-lhe pedalar por aqui!

Uma coisa que dá gosto de ver é a organização e disciplina do alemão. Tudo é certinho, bem sinalizado, limpo, arrumado. É muito estranho pra nós, descendentes de povos latinos, ver algo que funcione tão bem como as cidades alemãs. Simplesmente é algo que está no sangue deles, não no nosso. Outra coisa é a valorização da cultura e região. Por exemplo, pegue algo simples, como uma placa com nome de rua. No Brasil temos infinitos nomes para infinitas ruas, a maioria dos nomes nós nem sabemos de quem são, pra que serviram, se foram ou não importantes. Pegue a placa abaixo.

Ela simplesmente dá o nome completo da pessoa, ano de nascimento e morte e o que o cara fez! Pronto, aprende-se inclusive com as placas de sinalização! São esses pequenos detalhes que, quando somados em tudo, fazem a diferença em um país. Outra coisa impressionante? É difícil achar um alemão que fale menos do que 3 línguas. O alemão, o inglês e alguma outra língua (na maioria francês, espanhol ou italiano). E isso se aplica a praticamente todas as classes sociais e idades!

No sábado mesmo tivemos a oportunidade de visitar a vila na qual o gerente do projeto mora. Lugar ao pé de uma floresta densa, com pedras, morros, e um castelo medieval pertinho. A vila tem 700 habitantes, e uma tranqüilidade de dar inveja! As casas, todas com telhado repleto de células solares, vendem energia para a concessionária e – pasmem – ao invés de pagar conta de luz, ganham por ano cerca de 500 euros! Tudo bem que ele teve um investimento grande, mas ele está sendo ecologicamente correto e ainda ganha uma graninha. Qual a chance disso acontecer no Brasil?

Fomos muito bem recebidos pelo Ronald e sua família, cujos membros todos, obviamente, falam inglês. Fizeram um churrasco que, quando eu vi pela primeira vez a mini churrasqueira de metal, achei que não fosse rolar. E não é que rolou um baita churras? Mas eu já aprendi a técnica e quem sabe um dia eu apresento ela pra vocês no Brasil. Mas, por enquanto, prefiro a boa e tradicional churrasqueira brasileira.

E a última coisa que já chamou a atenção por aqui foi o tamanho das mesas de pebolim! O Ronald tinha uma mesa pra 6 pessoas (3 de cada lado), mas ele disse que existem lugares com mesas pra 22 pessoas! É um time inteiro de futebol, só que a galera fica controlando os jogadores de mentira! Dá pra crer? Vou ter que treinar muito pra mandar bem numa mesa dessas.

Mesa de pebolim p/ 6?

Por enquanto é só. Nos próximos dias devo postar mais novidades, fotos e comentários sobre as terras germânicas que, até agora, só me impressionaram positivamente!

May 31, 2011 / rzanini

Hora de partir

Ele acorda. Meio zonzo e sem saber direito onde está, vira para o lado e a vê. Sim, ela. Linda e com o olhar enigmático de sempre. Há quanto tempo será que ela o observava? Não saberia dizer. E o que será que se passa por detrás destes indecifráveis olhos? Ele não consegue entender se eles o convidam para ficar mais um pouco, ou se eles gentilmente lhe mostram a porta aberta. Ele prefere ignorar a segunda possibilidade, e a envolve em um abraço.

Talvez ele estivesse aprendendo a desarmá-la, pensava ele. Ela o abraça também. O silêncio volta e meia é quebrado por algumas palavras doces, algumas brincadeiras. Mas ele insiste em voltar. Não mais aquele silêncio preguiçoso que os envolvia semanas antes, sempre acompanhado de uma lembrança da noite deliciosa que eles haviam tido e a promessa de mais um dia inteiro juntos. O novo silêncio antecipava as perguntas e expectativas do momento que eles saberiam que chegaria, e que parecia esquecido entre tantos momentos de carinho, diversão e alegria que eles vinham compartilhando.

A carta da sua convocação ainda estava sob a mesa, enquanto eles tomavam o café da manhã. Provavelmente, o último juntos. Eles sabiam que a carta viria. A guerra já acontecia há anos, e acontecimentos recentes exigiam uma nova equipe especial em combate. Ele partiria naquela semana, e nada que eles fizessem mudaria isso.

Ele podia ver a leve tensão em seu rosto, enquanto ela fingia cortar uma fatia de pão despreocupadamente. O sorriso? Continuava inebriante como sempre. Porém, uma leve tristeza pairava no ar. Os beijos e carinhos eram oferecidos e recebidos com o mesmo fogo de antes, talvez até mais desejados, pelo medo de não mais acontecerem daquele jeito.

Ele vestiu sua farda, jogada aos pés da cama. Aquela cama. Aquele quarto. Impressionante olhar para eles e relembrar seu recanto íntimo de risadas, carícias e longas conversas na madrugada. Prometera vê-la ainda uma vez antes de partir. Disse-lhe mais uma vez o quanto a adorava e beijou-lhe as mãos demorada e silenciosamente. Algo frio e vazio tomava posse de si e, por alguns instantes, pensou que o ar lhe faltaria do peito. “Não quero te perder assim. Não assim.”, pensou.

Encontram-se ao pé da maior árvore do jardim da Igreja na qual seus olhares se cruzaram pela primeira vez. A tarde começava amena, com as folhas do outono caindo em seus pés. Uma suave brisa trazia o perfume dos lírios ao redor da Igreja, fazendo-a estremecer. Ele a abraça. Seus cabelos compridos ao vento cobriam parte do seu rosto, convidando-o a afastá-los suavemente com a mão e a olhá-la diretamente em seus olhos. “Meu Deus, não me faça ficar longe destes olhos”.

Na mente, um turbilhão de idéias. No peito, um coração prestes a explodir. Queria falar um milhão de coisas, recitar infinitos poemas, ajoelhar-se, jurar-lhe amor. Mas as palavras lhe faltavam, na mesma medida em que lhe sobrava medo e angústia em ter de deixá-la assim. Só conseguia abraçá-la, sentindo seu próprio coração batendo mais forte, a cada minuto em que se aproximavam mais do esperado fim.

Ela calara-se. Resumia suas ações a abraçar-lhe também, acomodando sua cabeça em seu peito, como costumava fazer. Ele podia ver que aquele momento a perturbava também. Afinal de contas, conhecia-lhe os sentimentos, sabia interpretar seus olhares, impulsos, pensamentos e aflições. Não saberia dizer se a tristeza em seus olhos o confortava, pela idéia de que ela também queria sua presença, ou se lhe cortava ainda mais o coração. Adorava-a demais para deixá-la sofrer.

O último beijo nunca era o último. O último abraço só o ensejo para mais um beijo. Não conseguiria soltá-la. Segurava-lhe grudada junto de si, como se cada segundo juntos naquele momento fosse capaz de transpor a distância que estava prestes a separá-los.

Não sabia se voltaria. Muitos dos seus amigos haviam ficado pelos campos de batalha, deixando esposas, mães, filhas, famílias inteiras para trás. E ele? Quem estaria deixando além de sua família e amigos? Sua amiga? Companheira? Amante? Não sabia definir. Mas sabia estimar a gigante parte da sua vida, da sua alegria e felicidade de viver que estariam ficando naqueles olhos. Naquele sorriso. Naquele beijo.

Suas mãos suaves de repente seguraram seu rosto, seus rostos encontravam-se agora a milímetros de distância. “Volte”. Teria ou não escutado “pra mim”? Já não sabia se seus sonhos eram continuação de seus pensamentos, ou se seus pensamentos só mais um sonho.

Quando finalmente acordou do transe em que a palavra lhe pusera, ainda pode observá-la distanciando-se, rumo à cidade. Seu barco já se encontrava no porto, seu batalhão inteiro a se despedir dos familiares, amigos e colegas. Seria uma longa viagem, quem sabe até mesmo sem retorno. Não sabia o que ele encontraria em terras tão distantes, quais perigos e inimigos haveria de combater. Mas dor alguma pareceria superar a que sentia naquele no momento. “Até breve”, repetia ele para si mesmo. “Até breve”.